Higienismo
Publicado no Jornal A TRIBUNA DE SANTOS EM 05/05/2026 - https://www.atribuna.com.br/opiniao/tribuna-do-leitor/tribuna-do-leitor-terca-feira-5-de-maio-de-2026-1.512569
“Olha essa sujeira”, diz uma moradora ao filmar um homem dormindo sobre sua carroça.
A frase é direta. E revela mais sobre quem fala do que sobre quem é filmado.
O que aparece ali não é apenas incômodo com a cena, mas uma lógica: transformar o outro em problema a ser removido.
No discurso, a cobrança recai sobre o poder público, como se a função fosse limpar o que incomoda — não lidar com a complexidade do que está posto.
O homem deixa de ser sujeito.
Vira obstáculo. Vira “cheiro”, “sujeira”, algo fora do lugar.
O higienismo começa assim: não com políticas, mas com percepções.
Quando a humanidade do outro desaparece, qualquer solução parece aceitável — desde que devolva conforto a quem observa.


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