Paralelo: quando a sociedade passa a premiar o improviso
Por Ricardo Murça
Introdução
No estudo do comportamento humano existe algo curioso: uma sociedade pode exigir cada vez mais certificações, normas e responsabilidades e, ao mesmo tempo, tolerar cada vez mais a informalidade do conhecimento.
Vivemos uma época em que pessoas estudam anos, seguem códigos éticos, assumem responsabilidades legais e se submetem a regras rigorosas. Mas, do lado de fora, cresce uma realidade paralela: indivíduos exercendo influência, ensinando, orientando e interferindo na vida de outros sem qualquer formação ou responsabilidade técnica.
A questão talvez não seja apenas profissional.
Talvez seja comportamental.
O que está por trás disso
Às vezes me pego pensando em como entramos em disputas desnecessárias movidas por empáfia, burocracia ou interesses corporativos.
Muitos profissionais enfrentam conflitos entre regulamentações, limites de atuação e disputas institucionais. E seguem as regras porque a ética profissional exige isso.
Enquanto isso, no cotidiano, o cenário parece diferente.
Há quem indique e produza medicamentos sem formação adequada.
Há quem “trate” sofrimento emocional através de fórmulas prontas e pseudociências.
Há quem ensine transição e sucesso sem conseguir fazer o mesmo com a própria vida
Há quem ensine finanças sem conseguir colocar ordem no próprio orçamento.
Há quem ensine relacionamentos sem conseguir sustentar os próprios.
Há quem ensine sucesso como produto de marketing.
E o problema não está em compartilhar experiências. Está em transformar experiência em autoridade técnica.
O exemplo do jornalismo
Uma discussão conhecida ocorreu no jornalismo.
Durante muitos anos, o diploma específico foi exigido para exercício profissional. Posteriormente, a exigência legal foi retirada.
O debate nunca foi simples. De um lado, liberdade profissional. Do outro, a preocupação sobre critérios mínimos de formação, responsabilidade e qualidade.
Porque uma pergunta permanece: se toda opinião pode ser emitida, toda opinião também deveria assumir automaticamente status de competência?
O erro mais comum
Talvez o erro da sociedade moderna seja confundir visibilidade com capacidade.
Número de seguidores não é conhecimento. Segurança ao falar não é competência. Convicção não é formação.
E autoridade social não é necessariamente autoridade técnica.
O problema começa quando a aparência de conhecimento passa a valer mais do que o próprio conhecimento.
Conheço pessoas que já fizeram mais cursos e possuem mais conhecimento de como falar, como se apresentar, o que vestir e como persuadir do que possuem conhecimento daquilo que vendem como verdade.
E, ainda pior: por trás da beleza, das lentes, da produção, do discurso, reside um grande caos.
O Instituto Ricardo Murça
Quando recebemos mentorandos no Instituto, quando produzimos textos, materiais e palestras, uma dúvida sempre paira na equipe que nos apoia: pagarmos ou não o preço pela verdade.
Temos um acordo de primar pela verdade, independente do custo que isso nos cause.
Seguimos no campo que muitas vezes é árido, seco e difícil de jogar, mas sabemos que é o correto a ser feito. Buscamos uma sociedade ética, preparamos pessoas éticas e ajudamos pessoas a resolverem seus problemas pessoais e profissionais com ética.
Até mesmo nossas palestras precisam passar por uma revisão para que se tornem mais palatáveis, mais audíveis e menos cruas. Quem conhece o criador do Instituto - Ricardo Murça, sabe de sua predileção por ser direto
Conclusão
Parece que criamos uma sociedade paralela.
Uma que exige rigor extremo de quem aceita regras e responsabilidades, mas que frequentemente tolera improviso em quem fala alto, aparece muito ou vende respostas fáceis.
E quando isso acontece surge uma escolha desconfortável:
Participar do jogo ou pagar o preço por continuar jogando pelas regras.
Esse é o tipo de reflexão que orienta o trabalho do Instituto Ricardo Murça, com foco em desenvolvimento humano baseado em psicologia, comportamento e vida real.










