Bicicletários em Santos: mobilidade urbana, comportamento e a contradição da cidade
Por Ricardo Murça
Introdução
Quando falamos de comportamento humano, desenvolvimento
pessoal e decisões na vida real, raramente pensamos em mobilidade urbana como
parte disso.
Mas deveríamos.
A forma como uma cidade organiza seus transportes influencia
diretamente escolhas, rotina, saúde e até bem-estar emocional.
E, em Santos, existe uma contradição evidente: a bicicleta é viável — mas não é tratada como prioridade.
O que está por trás disso
Depois de quatro anos de reabilitação, voltei a andar de
bicicleta.
A experiência deveria ser simples, especialmente em uma
cidade plana, costeira e com tradição no uso desse meio de transporte.
Mas o problema não está no trajeto.
Está no destino.
Onde estacionar com segurança?
A resposta, na maioria das vezes, não existe.
Faltam bicicletários. E o que se vê são bicicletas presas em
postes, árvores, grades — soluções improvisadas que evidenciam a ausência de
planejamento.
Mais grave: novos empreendimentos e até espaços públicos
ignoram essa necessidade básica.
Isso não é detalhe.
É escolha de modelo de cidade.
O erro mais comum
O erro está em tratar a bicicleta como alternativa.
Ela não é.
Em cidades como Santos, a bicicleta é um dos meios mais
eficientes de deslocamento: barata, não poluente, acessível e saudável.
Ainda assim, o planejamento urbano insiste em priorizar o
carro — um meio mais caro, mais poluente e menos eficiente para curtas
distâncias.
O resultado é previsível: discurso de sustentabilidade de um
lado, ausência de estrutura do outro.
E, no meio disso, o cidadão que tenta fazer diferente encontra dificuldade.
O que fazer na prática
A solução não é complexa — é estrutural.
Todo prédio, público ou privado, deveria contar com
bicicletários.
Todo novo empreendimento deveria incorporar essa demanda desde o projeto.
Isso pode ser gratuito, pago ou autogerido.
O formato é discutível. A necessidade, não.
Mais do que isso: é preciso reconhecer a bicicleta como
parte do sistema de mobilidade, não como exceção.
Quando a estrutura existe, o comportamento acompanha.
Sem estrutura, a mudança não se sustenta.
Conclusão
Santos tem tudo para ser uma cidade referência no uso da
bicicleta.
Mas isso exige coerência.
Não basta ter ciclovia.
É preciso garantir o ciclo completo: deslocamento, parada e segurança.
Se queremos menos trânsito, menos poluição e mais qualidade
de vida, a escolha é clara.
Talvez esteja na hora de inverter a lógica:
A bicicleta não é alternativa.
Alternativo é insistir no modelo atual.
Esse é o tipo de reflexão que orienta o trabalho do
Instituto Ricardo Murça, com foco em desenvolvimento humano baseado em
psicologia, comportamento e vida real.


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