quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

E agora, a responsabilidade é de quem?

Nos últimos dias, voltei a ver discussões sobre a contribuição sindical. Não assisti à matéria mencionada, mas um ponto recorrente me chamou atenção: a ideia de que uma assembleia de associados possa deliberar sobre a obrigatoriedade de contribuição para toda uma categoria.

Isso, para mim, é problemático.

Não se trata aqui de discutir legalidade — trata-se de coerência.

Quando um grupo decide por todos, inclusive por quem não participa, cria-se uma distorção básica: a contribuição deixa de ser vínculo e passa a ser imposição. E isso, cedo ou tarde, enfraquece a própria estrutura que se pretende sustentar.

O que mudou com o fim da obrigatoriedade

A reforma trabalhista trouxe inúmeros problemas — isso é fato. Muitos trabalhadores ficaram mais expostos, e a insegurança jurídica, que antes era uma crítica comum entre empresários, também passou a atingir o trabalhador.

Mas, ao retirar a obrigatoriedade da contribuição sindical, acertou em um ponto essencial:

ninguém deve ser obrigado a financiar uma entidade da qual não participa.

Isso muda completamente a lógica do sistema.

Antes, o financiamento era garantido. Agora, ele precisa ser conquistado.

O impacto real: sindicatos precisam voltar a gerar valor

Sem a contribuição obrigatória, os sindicatos passam a enfrentar um desafio que deveria ser natural, mas há muito tempo não era exigido:

mostrar relevância.

Não basta existir.

Não basta oferecer benefícios genéricos.

Não basta repetir discursos históricos.

Será necessário:

— entender as necessidades reais da categoria
— atuar de forma mais próxima e concreta
— negociar com competência
— construir presença nos locais de trabalho

Sindicatos que não fizerem isso tendem a desaparecer ou se tornar irrelevantes.

O erro comum: culpar apenas a direção

Existe um ponto que raramente é discutido com honestidade:

a entidade não é apenas sua diretoria.

Quando uma entidade perde credibilidade, não é só a gestão que falhou.

Há também um problema coletivo.

A omissão da categoria — seja por desinteresse, acomodação ou descrença — contribui diretamente para a deterioração da própria representação.

O papel do profissional

Se sindicatos, conselhos e associações são importantes (e são), então não podem ser tratados como algo externo.

Eles são extensões da própria categoria.

Isso implica responsabilidade.

Responsabilidade de:

— participar
— questionar
— propor mudanças
— apoiar boas lideranças
— substituir gestões ruins

Sem isso, qualquer estrutura se fragiliza.

Um novo cenário

O fim da obrigatoriedade não acabou com os sindicatos.

Mas mudou o jogo.

Agora, não basta representar.

É preciso convencer.

Não basta existir.

É preciso fazer sentido.

Conclusão

A lei pode proteger.

Mas não constrói pertencimento.

Uma categoria forte não nasce de imposição, mas de participação.

E, no fim, a pergunta não é se o sistema é justo ou injusto.

A pergunta é:

o que cada profissional está disposto a fazer para fortalecer a própria categoria?



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