Encontro: quando descobri sobre o que realmente escrevo
Durante muito tempo achei que meu maior desafio como escritor era aprender a escrever pouco.
Quem já tentou publicar em jornais sabe o quanto é difícil condensar uma ideia complexa em poucas linhas. Foi esse o primeiro obstáculo quando comecei a escrever para a Tribuna do Leitor. Cortar palavras, eliminar excessos e preservar o sentido exigiram um exercício constante de síntese.
Depois veio outro desafio, talvez ainda maior: encontrar uma voz.
Escrever não é apenas organizar frases. É descobrir de que lugar se fala. Há textos que informam, outros convencem, outros denunciam. Eu ainda buscava compreender qual era, de fato, a natureza daquilo que escrevia.
Com o tempo, os temas começaram a surgir naturalmente. Bastava caminhar pela cidade, entrar numa escola, observar uma fila, uma conversa, uma família, um cruzamento de trânsito ou um atendimento em um comércio.
Eu acreditava estar escrevendo sobre mobilidade, educação, política, ética, saúde, relações familiares ou cidadania.
Até perceber que não.
O cotidiano nunca foi o assunto
Essa talvez tenha sido a maior descoberta da minha caminhada como escritor.
O trânsito nunca foi apenas trânsito.
A escola nunca foi apenas escola.
A corrupção nunca foi apenas política.
A ironia nunca foi apenas uma figura de linguagem.
Todos esses temas tinham algo em comum: serviam apenas como ponto de partida.
O verdadeiro assunto sempre foi o comportamento humano.
O cotidiano tornou-se meu laboratório de observação. É nele que aparecem nossas escolhas, nossas contradições, nossos valores, nossos medos, nossas virtudes e nossas incoerências.
Uma vaga de estacionamento pode revelar mais sobre convivência do que sobre mobilidade.
Uma discussão entre pais e escola pode dizer mais sobre autoridade do que sobre educação.
Um texto sobre bicicletas pode, na verdade, ser um texto sobre planejamento urbano e respeito ao espaço coletivo.
Percebi que eu nunca escrevia sobre acontecimentos. Escrevia sobre pessoas.
Menos respostas, mais investigação
Essa descoberta também mudou minha forma de escrever.
Durante algum tempo, pensei que uma coluna de opinião deveria apresentar conclusões.
Hoje penso diferente.
A boa opinião talvez não seja aquela que encerra um debate, mas aquela que amplia a pergunta.
Vivemos uma época em que todos parecem ter respostas para tudo. As redes sociais transformaram certezas em espetáculo e dúvidas em sinal de fraqueza.
Mas compreender o comportamento humano exige exatamente o contrário.
Exige curiosidade.
Exige disposição para observar antes de julgar.
Exige aceitar que diferentes interpretações podem coexistir.
Mais do que convencer alguém, quero compreender por que fazemos o que fazemos.
Uma nova etapa
Não mudarei os temas.
Continuarei escrevendo sobre cidade, educação, psicologia, cidadania, comportamento, ética, relações humanas e tudo aquilo que faz parte da vida cotidiana.
Mas quero fazê-lo com uma voz diferente. Menos preocupada em concluir. Mais interessada em investigar.
Menos prescritiva. Mais reflexiva.
Continuarei defendendo ideias quando acreditar nelas, mas procurando deixar espaço para que o leitor também construa as suas.
Afinal, escrever não é entregar verdades. É oferecer boas perguntas.
Se esta nova fase tiver um propósito, talvez seja este:
Olhar para o cotidiano não para descrevê-lo, mas para compreender o que ele revela sobre nós.
Porque, no fim, nunca escrevi apenas sobre trânsito, escolas, política ou cidades.
Sempre escrevi sobre pessoas.
E suspeito que continuarei escrevendo sobre elas por muito tempo.
Um abraço
Ricardo Murça

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